on-repairs
Pode entrar sim. Mas não repara na bagunça não, é que eu ainda tava limpando a sujeira de outros rastros em mim. Uns arranhões assim que a gente coleciona com uns tombos assim que a gente até que sabe que vai acontecer e mesmo assim continua seguindo em frente. Sabe? Tipo quando tiram a rodinha da sua bicicleta pela primeira vez. Tudo bem que a gente adora a sensação de liberdade. Tudo bem que a gente acredita que somos os melhores do mundo pedalando. Mas a gente sabe que, aqui ou ali na frente, vamos perder o equilíbrio. Com um pouco de sorte vai ter alguém pra te segurar antes que você chegue ao chão. Minto. Tem que se ter muita sorte mesmo. Não é todo dia que alguém tá de olho nas suas conquistas para antecipar que você pode cair ali, na esquina, né? Os rastros que ficou foi de alguém que não quis me segurar quando caí –pode não ter visto, mas o que importa é que não estava prestando atenção. É assim que a gente sempre machuca: porque não se presta atenção –nem quem nos machuca nem a gente mesmo que não percebe que estamos indo um pouquinho longe de mais. Mas o que é que você queria que eu fizesse? Logo eu, que transbordo sentimento em cada rachadura de uma alma cheia de cicatrizes que ainda nem conseguiram sarar? Se não consigo lidar com tudo que trago no peito e vez ou outra –ou vez em sempre também –eu acabo ferindo os outros com minhas próprias feridas porque não tenho controle do que sinto e queria tanto, tanto, tanto ser uma daquelas pessoas controladas pode-vir-que-eu-aguento-eu-não-sinto-não-dou-a-mínima-se-você-vai-me-magoar que eu banco na frente do espelho e pra meia dúzia de pessoas que não me conhecem direito (mas que juram que me conhecem muito bem), sabe? É um saco ser esse tipo de pessoa que se quebra por uma palavra, que se fere por um silêncio, que não dá conta de engolir a mágoa e odeia ter que magoar os outros porque não sabe se controlar. É um saco ser eu, às vezes, mas você sabe, não dá para se fugir da gente mesmo. E aí a gente vai levando, e se machucando, e caindo, e se levantando, e ferindo e se ferindo e indo pra frente sem limpar os restos que ficou lá atrás e. Sem parar para se limpar, se desintoxicar, se curar. Tava limpando quando você chegou porque tava uma bagunça, cara, que nem eu estava conseguindo me achar. Mas não repara. Te juro que não sou tão bagunçada assim como parece que sou olhando de onde você tá. Não repara que eu me quebrei toda assim, em tentativas idiotas de te encontrar em cada olhar que eu dava pra um carinha qualquer. Porque sabe, cara, eu procurava você. Não repara o meu jeito, minha falta de jeito, de quem até que acha que sabe lidar com as palavras, mas é um desastre falando. De quem até acha que lida bem com sentimentos escritos, mas quase não suporta vive-los. Tava tirando o lixo de dentro do armário, rasgando umas cartas, queimando umas fotografias, apagando uns passados que colecionei junto de feridas que nunca quis colecionar quando você chegou. Mas sério, cara, não repara. Só para. Para na porta por favor e não vai embora assustado com minha loucura nem com minha doença: só me cura, por favor. Me re-para. Me conserta. Dá um jeito nessas minhas pontas soltas, me dá um nó, me prende a você. Faça qualquer coisa. Só não vai embora. Não parta. Não me parta. Que quando você chegou o mundo meio que fez sentido de novo. Que quando você veio assim, e entrou sem bater, e nem limpou a sola do sapato ou pediu licença, eu meio que voltei a ver graça nisso tudo. Eu meio que quis voltar pintar as paredes, ajeitar o quadro torto da parede, colocar um curativo nas feridas, tratar de machucados que já tinha deixado inflamar porque não tinha ninguém pra me olhar. Eu meio que quis diminuir um pouco dessa minha febre de amor –você veio na temperatura certa para me curar. Cê entende? No meio da bagunça mesmo, sem ligar antes ou se desculpar, você chegou e meio que me salvou da minha própria perdição. Que quando você veio eu me reencontrei em você e isso é tão louco porque já faz tanto tempo que eu havia me perdido, cara, que eu nem me lembro quando e como foi. Só sei que me perdi, tentando me encontrar. E te encontrando assim, eu me achei. Então, cara, entra. Não repara na bagunça não. Tô ajeitando tudo pra ficar melhor pra nós dois. Depois que eu jogar metade de mim fora, eu posso saber o que foi que eu perdi. Sabendo o que perdi, posso voltar a procurar. Né? Sei lá. Eu sou meio maluca assim, mas tô afim de você cara. Tô afim de você e isso me assusta que nem sei o que falar além de: pode entrar. Senta aqui no canto do sofá que tá limpo. Cê quer um café, um chá, um suco ou água? Cara, te preparo a minha vida se você quiser. Se você deixar.
Mas prometa que tá entrando pra ficar.
milaahb.  (via on-repairs)